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  • Ray

Sem Idéias Pra Sessão? 3 Técnicas de Criatividade, Inspiração e Solidez

Existe um momento marcante para mim em toda mesa que eu estou mestrando: o exato instante em que eu consigo ver o universo da história dentro da minha mente. É como estar em um plano inteiramente branco, e ver linhas começarem a correr por eles em toda as direções, formando ângulos, construções, pessoas. As cores vão preenchendo os planos, as criaturas começam a se mexer e ter pensamentos e motivações próprias, e eu sinto que eu conheço tudo que está lá, que qualquer informação está disponível e pode ser alcança facilmente. Eu praticamente posso estender a mão e tocar as paredes desse lugar. Parafraseando um poeta curitibano, “Aqui dentro, tudo é claro”. Até esse momento, todas as informações sobre a campanha são praticamente tabelas memorizadas - e como memorizar dado para uma prova, eu me vejo perdendo pedaços importantes. “Qual era o sobrenome do seu personagem?”, “Decidimos se o NPC era sua prima ou sua vizinha?”, “Como é a forma da sua máscara mesmo?” Internamente, eu sempre pensei nesses dois estágios como sólido e gasoso. O escritor Daniel Quinn tem uma outra metáfora, igualmente interessante, comparando adquirir conhecimento sobre algo com montar um mosaico:

"Nos estágios iniciais, não há nada parecido com uma imagem, mas conforme as peças são acrescentadas, uma imagem começa a se formar. E quando mais peças são acrescentadas, a imagem se torna mais distinta, mais definida, de forma que eventualmente você se sente seguro que está diante da figura básica. Deste ponto em diante, esta figura só consegue ganhar em nitidez e detalhamento enquanto mais peças continuam a ser acrescentadas. Ao final, parece que não há mais 'peças faltando', e apenas as rachadurazinhas entre peças contíguas continuam sendo preenchidas, com pecinhas cada vez menores. Conforme os vãos se preenchem, a figura se parece mais com uma pintura - um todo contínuo, não uma junção de fragmentos- e, ao final, não se parece mais com um mosaico."

E como fazemos essa mudança? Como passamos do estado gasoso, de um mosaico disforme com uma peça aqui e outra ali, para solidez palpável, para uma imagem perfeita, para um holograma? Bom, eu tenho algumas técnicas. E aqui vão elas: Música: "Eu quero estar onde as coisas acontecem"

De posse de uma playlist ou um álbum que eu goste, música a música, eu vou pensando em qual personagem do cenário cantaria aquilo ou teria aquela música

como tema. Eu posso até visualizar o AMV (Anime Music Video. Meu passado me condena e eu tenho orgulho disso) do personagem, da cena, do arco da campanha como um todo.

A vantagem disso é que cada música tem elementos próprio, e sobrepondo-as a um NPC, ela fornece nuances de motivações e sentimentos que talvez não tivéssemos explorado inicialmente. Sobreposta a um PC, pode nos dar idéias de arcos individuais que não teríamos necessariamente vinculado à aquele personagem. Na minha experiência, a técnica funciona melhor quando os dois temas não seriam inicialmente conectados, porque a chance de ter idéias (ou combinações de idéias) que fujam do lugar comum é maior. Um dos meus cenários favoritos é uma história de Changeling: The Dreaming cujo backstory é imaginado inteira ao som de Hamilton: An American Musical. As histórias são totalmente diferentes, e o exercício de fazer certos conceitos encaixarem foi muito interessante. Bricolage: livros e livros e livros Eu descrevi esse método alguns dias atrás, no Instagram, e como recebi algumas perguntas, achei melhor descrever aqui com maior liberdade de usar efeitos de texto.

Nota:Eu sou uma pessoa que se refestela na fisicalidade das coisas. Sintam-se livres para adaptar essas técnicas para algo mais abstrato, que não envolva carregar e empilhar quadrados de papel no tapete. 1-Vá até sua biblioteca. Caso você não tenha uma biblioteca, vá até uma livraria, ou faça uma lista de todos os livros que você já leu. Alguns sites te ajudam com isso, como Librarything.com e Goodreads.com 2-Selecione alguns livros - que você já tenha lido e conheça bem- da forma mais aleatória possível. Muitas vezes eu sequer leio os títulos ou vejo o que estou colocando na pilha. 3-Tendo recolhido a matéria prima da minha Bricolage, eu sento diante dos livros, pego um, e descrevo a história da forma mais genérica possível. Desventuras em Série seria: “Três irmãos se vêem constantemente vítimas da negligência, ganância ou estupidez de adultos, inclusive seus próprios pais, e tentam sobreviver em um mundo cada vez mais caótico, sabendo que podem confiar apenas neles mesmos”. Eventualmente, eu noto alguma característica especifica de alguma história que foi marcante para mim. Em O Circo Mecânico Tresaulti, um dos meus favoritos, eu frequentemente noto “Asas Mecânicas de Ouro” e “suicídio”. 4-Conforme vou fazendo essas descrições, eu vou colocando os livros em pilhas. De forma que cada pilha vá incorporando elementos da história. Então Desventuras Em Série + Crime e Castigo se torna: “Três irmãos se vêem (...). Eles encontram um jovem que, tomado pela ganância, cometeu um assassinato e agora se vê atormando pela culpa.”

5- A cada novo livro acrescentado à pilha, aquela 'linha narrativa' fica mais complexa e específica. Você pode ir acrescentando mais ao gosto, ou parar quando achar que tem algo interessante o bastante.

6-Por último, eu seleciono uma das minhas "Pilhas de Idéias", que a esta altura já se tornou uma história relativamente complexa, e preencho as lacunas genéricas com os PCs, NPCs e elementos da campanha apropriados. "A mãe e os tios do PC Fredegunderçon, quando crianças, ficaram órfãos e passaram por uma série de problemas, não podendo confiar em nenhum adulto e em absolutamente ninguém além deles mesmos. No seu caminho, encontraram um jovem que tinha cometido assassinato para colocar as mãos em um grande tesouro, e tomado pela culpa, confessou seu crime. A mão e os tios do Fredegunderçon, contudo, sabiam a localização do tesouro , e o guardaram. Décadas se passaram, e dois dos três irmãos faleceram, e a localização do último irmão é desconhecida quando um grupo de mercenários, incluindo os outros PCs Ermenegildo e Lindomarildana, vão atrás do Fredegunderçon para "ajudar" a tentar descobrir onde o tesouro está."


Neil Gaiman, quando fala de inspirações, fala que “idéias vêm da confluência, de duas coisas se juntando, daquilo que você viu e pensou e sabe sobre algo, e do que você viu e pensou e sabe sobre outra coisa, e da realização que você pode colidir essas coisas.”


Esse processo é só a versão jumpstart dessa noção, com bloquinhos de montar. Digo, livros.


Contar a História no Passado: Na minha próxima sessão, eu fiz...


Esse é um truque que me ajuda muito quando eu não tenho nem idéia do que vai acontecer numa determinada sessão. Seja porque os jogadores agiram de uma forma muito surpreendente (positiva ou negativamente), seja porque a história empacou, ou porque dois personagens passaram a se odiar e se recusam a trabalhar juntos, o fato é que eu olho para o constructo dentro da minha mente, e ele não se move.


Então eu conto - em voz alta, para mim mesma - o que aconteceu na próxima sessão. Como disse Douglas Adams, o problema de viagens no tempo são as conjugações verbais, mas a idéia é simples: eu finjo que a sessão já aconteceu, e eu estou só contando ou lembrando como foi. Eu chamo de Theoretical Time-Travel (eu tentei traduzir, mas não ficava tão bom).


“Então, na sessão passada, os meus jogadores começaram no (fim da sessão anterior). Em seguida, Fredegunço decidiu que ele estava cansado da liderança de Ermenegildo Garras de Ouro como líder da Matilha, e o desafiou para um combate. Deu errado, claro, porque o Ermenegildo, sendo maior, mais forte e ainda estando na lua dele, tinha todas as vantagens…”


Eu marco um mínimo de 10 minutos nessa descrição, e eu não paro de falar durante esse tempo (uma alternativa é escrever). Mesmo que eu não saiba o que dizer, eu simplesmente escolho algo absurdo ( “então ele se transforma em um unicórnio …” é uma muleta recorrente), e continuo. Durante esse tempo, ou eu gravo a mim mesma, falando ou vou anotando plot points que aparecem.


E eu largo mão daquilo por pelo menos um dia.


No dia seguinte, eu atuo como se aquilo fosse o meu brainstorm, faço um processo de seleção de elementos que podem ser usados ou adaptados, e continuo com o planejamento como ensinado por Deus, Phil Vecchione e (para mim) Cobbi em Despreparado Nunca.


Tá, e daí?


Uma das coisas mais importantes que você pode fazer pela sua criatividade, particularmente quando você não pode se dar ao luxo de só trabalhar com explosões espontaneas de inspiração, é ter um processo criativo. Faça o design que uma série de passos ou circunstância ao redor de como você gera seus elementos narrativos, e recorra a eles sempre que for criar: você vai perceber que simplesmente seguir o ritual já vai colocar a tua cabeça no lugar certo.


Esses truques, e vários outros, são ferramentas que você pode ir colocando no seu arsenal, que vão te permitir não apenas evoluir como mestre e desenvolver uma voz própria, mas ter mais confiança na sua capacidade de criar uma experiência.

Mais solidez.

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